O ESPELHO DESENTERRADO DA AMÉRICA EM
CRISTÓBAL NONATO
Silvia Miranda Boaventura – UERJ
A última década do século XX traz em seu decorrer a memória de vários projetos histórico-culturais inconclusos, esquecidos ou destruídos no mundo e em especial no continente americano. Nesse sentido, o recente aniversário de 500 anos do Descobrimento da América na época crucial de fim de século e milênio propicia e instiga revisões e proposições sobre este lugar e sua paisagem humana, para que não se embacem as diferenças de percurso e constituição histórica e as alternativas culturais na lógica hegemônica atual de globalização.
O espelho enterrado, texto ensaístico de 1992, de Carlos Fuentes nos mostra uma visão multicultural da América desde os primórdios até a contemporaneidade. Os ibéricos, tanto os espanhóis quanto os portugueses, são dominados, em momentos históricos distintos, pelos romanos e pelos mouros, além de contar com a presença constante e numerosa dos judeus. Os astecas, que dominam o México à época da conquista, por seu caráter expansionista e constituição guerreira trazem em si vários traços culturais dos povos que eles submetem. Os negros trasladados para o Novo continente como escravos, quando da colonização, provêm de várias tribos africanas e de distintas castas sociais, trazendo assim cultos, usos e costumes diversos entre eles.
A questão que o autor coloca é como sincronizar essa rica tradição cultural que é contínua na América, por conta dessa constituição multicultural e polirracial, com a realidade sócio-econômico-política, permanentemente, desigual, defasada, violenta e injusta. O caminho proposto por Fuentes é que nos vejamos no espelho desenterrado da história, refletindo a nossa imagem, de novo, no espelho das culturas que nos formam para poder eleger outro(s) rumo(s) histórico(s).[1]
Acreditamos que a visão de Fuentes, como ensaísta, vai relevar uma conciliação entre conquistadores e conquistados pela mistura de culturas que promovem, apontando para uma identidade americana policultural, que torna a iniquidade sócio-econômica incompreensível, como se uma fosse inerente à outra e não houvesse desigualdade na relação de forças entre aquelas culturas mesmas que se amalgamam, que podemos dizer, então, entre as classes sociais que se formaram, cuja permanência no poder e respectiva riqueza dos grupos participantes das elites depende daquela disparidade econômico-social questionada pelo autor.
Contudo, o escritor Carlos Fuentes articula tanto a história quanto a literatura com a imaginação:
La retórica crea la historia, pero la literatura la salva del olvido [...]. La historia se inventa. Los hechos se imaginan [...]. Sólo dañamos a los demás cuando somos incapaces de imaginarlos”[2]. Este fragmento do conto Las dos Numancias como os demais formadores da coletânea El naranjo de 1993 confirmam o projeto estético de Fuentes no romance Cristóbal Nonato: “a imaginação do passado e a recordação do futuro.
Em Cristóbal Nonato, o narrador é o próprio ciclo da vida, Nonato - ele mesmo - em construção, trazendo a memória dos antepassados cromossomáticos e fazendo novamente a história: experiência e destino pessoal e coletivo, o óvulo em expansão imagina e concretiza essa narrativa. Se a imaginação é a condição prioritária de todo conhecimento, Fuentes aposta na superação dos questionamentos excludentes quanto à identidade da América: descobrimento? encontro? invenção? e propõe a imaginação como eixo de coexistência dos contrários. O espelho que reflete o perspectivismo múltiplo das Américas e do Mediterrâneo, postos frente à frente para se imaginar com reciprocidade.
ÉSTA ES LA NOVELA que estoy imaginando dentro del huevo de mi madre. [...]Faltaba más, Cristobalito: si la tierra es redonda, por qué no ha de serlo una narración? La línea recta es la distancia más larga entre dos palabras. Pero sé que soy una voz clamante en el desierto y que la voz de la historia siempre está a punto de silenciar la mía. [...]Pero si elector es mi amigo y colaborador, como quiero y confío [...], pondrá algo de su parte, será un auxiliar, un cronista externo respetuoso de la concienzuda indagación de mi gestación interna y de lo que aconteció antes de ella, porque no hay evento que no llegue acompañado de sus recuerdos: en esto nos parecemos tú y yo, Elector, ambos recordamos, [...]lo que yo no sepa recordar, tú lo puedes recordar por mí; tú sabes lo que pasó, tú no me dejarás mentir, tú te acuerdas y me cuentas que [3]
A problematização do tempo, da linguagem e das presenças do autor e do leitor desenvolvida na obra, foca o romance como repertório inesgotável de possibilidades. Assim como os espelhos de Dom Quixote e de Jacques, o fatalista, mostram, respectivamente, Quixote e Sancho cavalgando pela Mancha espanhola do século XVII, Jacques e seu amo peregrinando pela França do século XVIII, Cristóbal Nonato reflete a viagem de um casal, Ángel e Ángeles, pelo Méxicodo século XX. Se Miguel de Cervantes propõe o princípio da incerteza em contrapartida à visão dogmática da Espanha inquisitorial, Denis Diderot traz o fluxo perpétuo em tensão com o tempo linear do Iluminismo. Refletindo essas cosmovisões fundadoras, Carlos Fuentes recompõe a circularidade do tempo como contraponto à linha ascencional e excludente do progresso tecnológico do século atual, e como alternativa para que se libere o século XXI do isolacionismo e do acirramento das particularidades nacionais, étnicas e religiosas deste final de milênio.
Se a partir do Século de Ouro espanhol, Cervantes nos ensina a ler de novo, desde o Século das Luzes francês, Diderot recruta a nós, leitores, como co-criadores. A fisionomia da América Latina reflete, historicamente, as tendências européias, não só os traços ibéricos das metrópoles conquistadoras como também o traço francês de união continental latino-americana que se mistura aos das antigas metrópoles. Remexendo esta conjuntura de dominação sócio-econômica e imitação artística alienada, Fuentes traz à luz contribuições literárias fundadoras que ao mesmo tempo que falam das épocas nas quais surgiram, se deslocam de suas culturas particulares para compor visões originais de universalidade, sempre presentes e contudo, constantemente, invisíveis.
Ampliando e aprofundando a dialética do movimento dos sonhos com a ordem mundial que culmina com a imaginação histórica: Cervantes imagina um mundo de múltiplos pontos de vista no centro de uma sociedade fechada, Diderot imagina um mundo em constante movimento, onde as presenças são ordens momentâneas, em meio à preponderância da ordem linear de seu tempo. Fuentes, ao desenterrar esses espelhos, revela-nos que "La Mancha, en verdad, adquirió todo su sentido en las Américas" [4] e que "la crítica del tiempo lineal se manifestó mediante una recuperación de los otros tiempos: los tiempos de los otros, vale decir; entre ellos los de la América Latina”. [5]
O "Ovo" que nos fala em Cristóbal Nonato foi gerado por Ángel e Ángeles, o casal mexicano que empreende uma viagem pelo território nacional, em busca da realidade perdida, a "Suave Pátria", sob a aparência desnaturada do país atual. La Mancha latino-americana, versão México 90, invoca a fé desejosa de Ángel na "Pátria impecável e diamantina", da nostálgica evocação poética de López Velarde - 'castelhana listrada de asteca' - , contra a ordem histórica do mutilado território pátrio: fronteiras encurtadas para os Estados Unidos, regiões ocupadas por empresas petrolíferas multinacionais, meio-ambiente degradado por quase todos, explosão demográfica na capital, revoluções repetidas como farsa, PRI - o partido da revolução traída com sessenta anos de poder -, fuga de capitais da elite de poucas famílias, migração em massa das numerosas famílias empobrecidas...
Fuentes sentencia que a vitória final do mundo indígena no México ou a verdadeira vingança de Moctezuma é a tradição do sacrifício, a permanência de seu sentido, na manutenção da ordem do cosmos pelo sacrifício. Assim, o escritor desenterra o espelho das sociedades de sacrifício, de que fala Todorov ao definir as mortes praticadas pelos astecas para a nutrição da natureza.[6]
No país das rebeliões contínuas, Carlos Fuentes vai desenterrar os espelhos da insurgência civil e da sacralidade popular. A primeira visão é refletida pela rebeldia conservadora de Ángel e seus companheiros na paródia do movimento guerrilheiro que remonta até as originais “guerras floridas” dos astecas para o aprisionamento de distinguidos guerreiros das nações confrontadas para o sacrifício aos deuses, restaurador da energia solar e conseqüente fertilidade da terra.
Desse modo, os rebeldes ficcionais pretendem o reequilíbrio da natureza e da sociedade, mediante a morte de representantes das elites da socidade atual e da destruição do santuário de corrupção, consumo, hipocrisia e injustiça social representada por Acapulco. Na verdade, os rebeldes buscam a insurreição da realidade mexicana, retificando a História para dar um outro sentido à nação.
Assim, espelham o radicalismo da Revolução Mexicana e como conservadores propõem a volta às origens, o que é válido da tradição espanhola e, ao mesmo tempo, o que perdura estabilizado do passado indígena. Porém, para os rebeldes ficcionais complica-se a continuidade do projeto, como na convenção de veracidade revolucionária sobre a qual Octavio Paz afirma: “o zapatismo e o villismo [...] eram explosões populares com escasso poder para integrar suas verdades, mais sentidas que pensadas, num plano orgânico. Eram um ponto de partida, um signo obscuro e balbuciante da vontade revolucionária”. [7]
Em Cristóbal Nonato o extremismo sacrificial de agora concomitante à fulguração daquele instante pretérito, dos rituais indígenas de destruição/criação, apresenta a fisionomia histórico-cultural da Revolução Mexicana, que conjuga a festa com a morte e, nessa celebração com sangue, encontra-se com o país profundo para refundar a nação. Mas, ainda é insuficiente ideologicamente para o esforço de articulação e de coerência do que é instintivamente reivindicado pelo povo.
O que propõe a imaginação histórica diante das imagens de augúrios, sacrifícios, massacres, revoluções, pobreza, progresso...? Em Cristóbal Nonato a experiência épico-trágica, a saga do povo mexicano que sofre a derrota de seus projetos mais caros e, ao mesmo tempo, tão precários: “a suave pátria” - o nacionalismo sensual - ou “a nação guadalupana” - a sacralidade nacional - torna-se conhecimento.
O saber da experiência do fracasso desaconselha o conflito armado diante do poder das armas, tanto do governo local quanto do vizinho intervencionista, una-se, a isso, o poder de manipulação de um Estado forte que conta com a cumplicidade de boa parte da sociedade civil.
No caso de Cristóbal Nonato pode-se ler, com Octavio Paz, que a imaginação histórica, propulsora do movimento dos sonhos na primeira volta, retorna na segunda volta articulando o aprendizado daquela propulsão como crítica. A aprendizagem da imaginação vai orientar o discernimento necessário entre realidades desejadas a se construir ou miríficas a se dissolver.
Nesse sentido, a família nuclear mexicana -Ángel, Ángeles e Cristóbal Nonato - vive o impasse da decisão entre partir para Pacífica, a parte oriental contemporânea desenvolvimentista, ou ficar no México 92. Carlos Fuentes projeta dos anos 80, época da publicação desta narrativa, a década de 90 em que o México está mais empobrecido, conflagrado, repressivo e com o meio-ambiente degradado, além de ter várias regiões tomadas por corporações multinacionais e zona de ocupação militar americana. Fuentes lança ainda para essa década a dominação econômica e tecnológica do mundo pela China e pelo Japão.
A transformação revolucionária da realidade ao fim e ao cabo ainda é um projeto em construção. Esse movimento procura distinguir-se daquele mantenedor da ordem estabelecida ao expor sua sustentação ideológica e tornar visível a sua contrapartida as alternativas de realidade que foram banidas ou sequer tentadas.
Dessa maneira, projeta-se a utopia, cujo desejo de ser estrutura a história da América Latina. Tal espelho reflete em Pacífica um presente liberado de necessidades e da deformação do poder, quando o futuro já é , mediante a consecução de outra rota do passado. Lembremos que Colombo acreditava ter chegado aos reinos orientais da China e do Japão, que o Novo Continente também era chamado de Índias Ocidentais e no instante primordial da chegada se qualificava o continente americano como paraíso, eldorado.
Nesse passo, no século XX, mirando os anos 90 a partir dos 80, o Oriente parecia ancorar o futuro no presente, apontando para os países centrais do Ocidente como o perigo amarelo financeiro e para as nações periféricas ocidentais como possibilidade de exílio econômico ou de alternativas viáveis fora dos grandes centros.
Entretanto, o espelho histórico da América Latina, que foi soterrado pelo assimilacionismo colonizador, pode refletir desde nossas origens as possibilidades locais de enfrentamento. Ao mirar-nos nos espelhos utópicos de Morus e Campanella ou na prédica do bom governo de Garcilaso Inca de La Vega, conforme Subirats assinala, conseguimos perceber além de sociedades ideais, seu reverso, as realidades perversas nas quais nos instalamos. Pois aqueles lugares imaginários de que falam estruturam-se por políticas públicas baseadas na autonomia das comunidades e nos bens compartidos com todos.[8]
A proposição utópica do personagem Ángel presume a solvência das contradições político-históricas e da identidade fracionada para existir de verdade e, ao mesmo tempo, conviver, se reconhecendo na universalidade humana, assim se chega ao lugar ideal.
Ángeles, Cristóbal, no quiero un mundo de progreso que nos capture entre el Norte y el Este y nos arrebate lo mejor del Occidente, pero tampoco quiero un mundo pacífico que no merecemos mientras no resolvamos lo que ocurre acá adentro, nos dice mi padre, con todo lo que somos, bueno y malo, malo y bueno, pero irresuelto aún; mujer, hijo, llegaremos a Pacífica un día si antes dejamos de ser Norte o Este para ser nosotros mismo con todo y Occidente.[9]
Em Cristóbal Nonato a opção utópica afasta-se das migrações para os paraísos externos econômicos e tecnológicos, buscando integrar-se à história mundial compartindo os bens e os males de raiz desenterrados com o patrimônio reavaliado de erros e acertos internacionais. Fuentes assinala que o Novo Mundo anuncia seu novo mundo, já que os homens e mulheres da América não cessam de construí-la, assim o mundo continua inacabado, porque a história não termina, é imaginada:
porque un instante antes de salir del vientre de mi madre ya sé (y lo voy a olvidar!) que ni yo ni ningún niño por nacer, aquí o en la Cochinchina o en la Chiuahina toleraría al nacer un mundo perfecto, un mundo justo: nos horrorizaría, nos despojaría de todos nuestros pretextos, necesitamos, oh Señor, oh Lector, [...] un mundo injusto para soñar con que podemos cambiarlo, nosotros mismos, por otro mejor: la Tierra sonríe antes de pagarnos, misericordiosa, con la muerte... [10]
A insatisfação é o fundamento da criação, pois movimenta-a continuamente, buscando o aperfeiçoamento, mas não a perfeição que presume um modelo previamente acabado. Diante disso não se pode intervir, assim se cancela a fluência da história através dos contributos constantes das diversas gerações em seu devir e também não se experimenta o risco propulsor de toda e qualquer criação artística, existencial...
Fuentes convoca o leitor a redescobrir a América e sua circunstância inspiradora da procura de novos mundos. A chave é a imaginação com a qual pensamos dialeticamente como pluralidade de espelhos e máscaras utópicos, épicos, míticos... Desse modo retotalizamos, firmados na crítica de Walter Benjamin[11], os tempos da tradição e os espaços da imaginação sem nunca chegarmos ao fechamento totalitário do pensamento único, da forma exclusiva, já que imaginando aproximamos a memória do desejo para compensar e completar o sentido da experiência histórica.
[1] FUENTES, Carlos. El espejo enterrado. México, Fondo de Cultura Económica, 1992. p. 132-3.
[2]FUENTES, Carlos. El naranjo. Madrid: Alfaguara Hispánica, 1993. p. 142; 156; 157.
[3] FUENTES, Carlos. Cristóbal Nonato. México: Fondo de Cultura Económica, 1987. p. 207.
[4] FUENTES, C. (1992) p. 203.
[5]FUENTES, Carlos. “La nueva novela hispano-americana”. In: LOS NOVELISTAS como críticos. Comp. Norma Klahn & Wilfrido H. Corrael. México: Fondo de Cultura Económica, 1991. t. 2. p. 105.
[6] TODOROV, Tzvetan. A conquista da América: a questão do outro. Trad. Beatriz Perrone Moisés. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988. 263 p. 139-140.
[7] PAZ, Octavio. O labirinto da solidão e post-scriptum. 2.ed. Trad. Eliane Zagury. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984. p. 131.
[8]SUBIRATS, Eduardo. El continente vacío: la conquista del Nuevo Mundo y la conciencia moderna. Madrid: Anaya & Mario Muchnik, 1994. p. 352-3.
[9] FUENTES, C. (1987) p. 555.
[10] Ibidem, p. 558-9.
[11] KONDER, Leandro. Walter Benjamin: o marxismo da melancolia. 2. ed. Rio de Janeiro: Campus. 1989. p. 60-1.